Terceiro Contracanto: Eis o Homem!

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Terceiro Contracanto: Eis o Homem!

Mensagem por Zubrycky em Sab Dez 01, 2012 11:21 pm

Saudações a todos!

Aproveitando o mês de dezembro que se inicia hoje, achei que seria uma boa idéia compartilhar com vocês, neste Terceiro Contracanto, um texto que foi escrito por um dos maiores mestres que já tive: Meu querido e saudoso Professor e amigo Arnaldo José Senise..

O artigo se chama "Eis o Homem!" e ele é parte da apostila de um curso livre chamado "Uma Perspectiva Espiritual da História da Música" que o professor Arnaldo Senise ministrava na ULM.

Tomei a liberdade de digitá-lo aqui palavra por palavra para vocês. Os negritos e os grifos são do texto original, exceto no último negrito, feito por mim mesmo para ressaltar a mensagem do texto.

Espero que a leitura dele seja tão boa e transformadora para vocês quanto ela foi para mim.

Feliz Natal antecipadamente a todos,
D. santa

Post Scriptum: Decidi colocar este texto aqui bem antes do Natal devido à importância de sua mensagem, pois estou firmemente convencido de que, ainda mais nos dias gélidos de hoje, Papai Noel é mais importante do que nunca.

Post Scriptum 2: Este Contracanto é dedicado à memória de Arnaldo José Senise. Descanse em Paz, meu querido amigo e mestre.


Última edição por Zubrycky em Sab Dez 01, 2012 11:24 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Terceiro Contracanto: Eis o Homem!

Mensagem por Zubrycky em Sab Dez 01, 2012 11:21 pm

Eis o Homem!

Por Arnaldo Senize, musicólogo, da Academia Brasileira de Música.

"Ponho-me a pensar na formosa significação do símbolo Papai Noel, quando me surpreende a notícia de um protesto popular, em Viena, se autodenominando Movimento Anti-Noel - E isto vem desde fins de 2002.

Vejo este ato com tristeza, mas com indulgente compreensão. De fato, o mito Papai Noel se sobrepôs à consciência autêntica do Natal, convertendo na derrisão de um ato de hedonismo.

Trata-se de um processo visceral na cultura racionalista/materialista que timbra o Ocidente.

A mesma corrupção os Latinos imprimiram ao símbolo precioso do deus Dionísio dos Gregos. Importado pelos Romanos, estes o converteram em Baco, o deus das bebedeiras e das orgias. Eis, porém, que Dionísio era. na Grécia Clássica, a divindade propiciadora do arrebatamento ardoroso que impele o espírito a se entregar incondicionalmente à busca do Reino Celeste, entendido este tanto quanto presença divina nas faculdades da alma encarnada, quanto como finalidade de existência.

As imagens simbólicas, assim como as histórias mitológicas, exprimem as tensões profundas inerentes à nossa natureza encarnada, Sua formulação intuitiva e instintiva tem o fim de despertar a consciência para o sentido da vida e dos trabalhos humanos. Os símbolos mitológicos são criações decorrentes do modo de funcionar do psiquismo, que revelam a sua organização e manisfestam forças vitais que lhe são inerentes. Essa espécie de simbolismo é, assim, uma irrefreável "base psíquica comum a todos os humanos", de acordo com os ensinamentos de C.G. Jung.

Vista por esse ângulo, a imagem do Papai Noel é de enternecedora e encantadora eloquência - coisa que se vislumbra até em breve análise.

Papai Noel representa exatamente o coração dos homens na plenitude das suas plenitudes mais elevadas, benfazejas e ardentes.

Suas vestes rubras e suas formas arredondadas, assim como as rosas vermelhas, aludem diretamente à imagem do coração, ao calor do sangue como veículo da vida, e, principalmente, à generosidade da entrega apaixonada.

Seu semblante rotundo, viçoso e rubicundo alude à vitalidade exuberante que verte com abundância da entrega amorosa. A alegria que nele se estampa alude à bondosa afetividade e à bem-aventurança que toma aqueles que se ajustam à lei de amor - Essa lei que produz Vida, fazendo pulsar o universo, desde a agitação anelante que é imanente nas partículas do átomo.

Suas sombrancelhas espessas e a sua alvíssima barba longa aludem flagrantemente à Sabedoria. Sabedoria, quer dizer, o Conhecimento aplicado no sentido de "abrir as almas para a grandeza do espírito", como bem diz Miguel Reale, e para o cultivo das faculdades que em nós darão o cumprimento ao objetivo sublime da existência. É Ciência a serviço da transcendência. Sabedoria é pois um atributo adquirido pelo acúmulo das vivências, mediante a humilde reverência do Saber às virtudes que promanam do coração, e só do coração.

O corpo obeso do Papai Noel alude não apenas à abundância da generosidade, como também, à desmedida - esta que é a única medida do amor. O coração aberto é sempre aquele que procura, não o procurado. Oferece, antes de qualquer indagação. Não ajuíza; brinda. "Só se ama o suficiente quando se ama desmensuradamente" - dizem sabiamente os italianos.

Os presentes que ele traz são bens espirituais - é o nosso próprio coração que tem a virtude de os prodigalizar. Esses mimos simbolizam, numa primeira instância, as benemesses materiais, físicas e espirituais que irrestritamente se espargem por onde quer que passe um coração radiante de amor, de compaixão e de Sabedoria. Entretanto, numa segunda instância, tais mimos serão principalmente as benemesses da elevação espiritual e da sintonia com as leis celestes, que irão regalar inevitavelmente o próprio ser que abre o seu coração para que nele se instale Papai Noel... O gorro vermelho é antes auréola de "santidade", além de proteção celestial. Reitarada alusão ao deus Dionísio da Grécia.

As grossas botas do Velhinho aludem à intrepidez e à segurança com que os seres iluminados, de coração amoroso, caminham pelas veredas deste mundo, sobrepujando as vicissitudes e, com a sua simples presença, infundindo a alegrua, graças à força avassaladora do amor.

As renas velozes que o deslocam simbolizam, por um lado, o fluxo irrefreável de movimento inerente à Vida, na sua viagem de retorno ao Princípio Celeste. Por outro lado, simbolizam o poder do amor como alento do espírito rumo ao Alto. A própria fluência com que seu trenó sulca a neve alude à suavidade e ao refrigério que promanam de todo o coração amoroso e compassivo como marca de sua passagem pelo mundo - seja iluminando a alma e lhe acendendo o vigor para as próprias lutas, seja tornando menos sofrida a caminhada dos companheiros de viagem.

Não, nem uns nem outros de nós, não somos filhos de Papai Noel. Poderemos ser, todos nós, no entanto, Papai Noel de nós mesmos, se quisermos. E ''a tal felicidade" da qual fala a triste canção, não nos será, assim, um presente dele, Ela se instalará em nós como simples consequência - a felicidade possível e relativa, que poderá tornar menos dolorida a convivência de seres marcados desde o nascimento pela dor, para uma existência à qual são próprias as lutas, labutas e lágrimas.

Num planeta em que o lucro de um centavo, como fruto do investimento de um dólar, convertido em soberano de si mesmo, sobrepuja o valor da Vida - nesse mundo, o ver-se transmutado em Papai Noel de si próprio certamente constituirá atitude insanda e ridícula de palhaços desmiolados.

Estou porém convencido de que nessa atitude residiria não apenas a salvação da existência terrena dos homens - eis que não pode haver amor nem paz para todos sem que haja, antes, amor e paz no coração de cada um. Mais: Essa atitude constitui a salvação de cada um para o reino que, sabidamente, não é deste mundo.

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Sem receio de incorrer em heresia, não posso me abster de aproximar Papai Noel de Dionísio. Este, para os Gregos antigos, era o deus-coração, o da compaixão, bondade ( Coisa tão rara hoje! ), da sociabilidade - mas também da simplicidade e da humildade. Era exatamente o deus que acendia, nos humanos, os dons que os embalariam na direção mais direta para a pátria celeste. O professor Viktor D. Salis o explica brilhantemente em seu livro "Mitologia Viva", Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

Vou além no paralelo com os mitos da Grécia Clássica, apelando agora para a célebre história de Orfeu e Eurídice.

Quando Orfeu empreende a sua famosa viagem ao Reino dos Mortos, para implorar a graça de ter Eurídice de volta à vida, ele vai cantando e se acompanhando à lira. Era aquele canto mágico que em todos os seres acalentava a alma e enchia de luz todas as paragens por onde ele andava. Orfeu, com isso, enxergava o mundo como pleno de alegria - mas era a vibração de seu corpo que gerava a alegria.

Diz uma certa tradição, citada por Ignacio da Silva Telles, que quando Orfeu retorna - informado de que Eurídice o vinha seguindo atrás, por especial concessão - ele agora não vem mais cantando, porque não sente mais a necessidade de comover os seres e as coisas, nem de aplainar os caminhos na busca da misericórdia... Ele então observa, acabrunhado, o quanto é frio, obscuro e duro o mundo terreno onde nos arrastamos em uma existência de esforços e dores. Era, anteriormente, o calor de seu coração que, por meio do seu canto, a todos os seres dulcificava, projetando a luz e a todos reconfortando. O nome Orfeu significa "Aquele que cura pela luz"...

Ora, Papai Noel aparece sempre em uma paisagem de gelo, sem cores, e sobre a qual o rubro de suas vestes e de sua fisionomia lança fulgorante contraste. *

A neve espessa daquele cenário representa, sem dúvida, a aspereza e a dureza do mundo e da vida que vivemos - hoje, talvez mais do que nunca...

Papai Noel - ou seja, o coração abrasado e esbraseante de paixão e compaixão - é acalento e alegria. É exatamente como a bondade que se derramava do coração despedaçado de Dionísio, que teve o corpo dilacerado pelas forças do mal, porque ele era o bem... É a luz do mundo, como se diz que foi o Canto de Orfeu para a Grécia...

Vibrar permanentemente de paixão e compaixão - isto mudaria a face do planeta!

* Com efeito, observa o Prof. Viktor D. Salis, há uma corrente de estudiosos que aponta, como origem da raiz final do nome Dionísio, a palavra Nissi, isto é, ilha. Nos termos dele: "Seria, portanto, o deus-ilha, significando aquele que veio ensinar aos homens os caminhos para romper o seu isolamento original (Egoísmo e narcisismo, diríamos hoje) e abrir os caminhos para o encontro do outro." Ora, a água que cerca a ilha é o elemento da frialdade e apartamento, os quais Dionísio transpõe pra se expandir em sociabilidade. Pois não corresponde essa imagem com exatidão, ao distanciamento de gelada solidão onde está a residência de Papai Noel - que se diz habitar o Polo Norte - e que ele abandona alegremente para difundir calor amororoso?!" (Viktor D. Salis, "Mitologia Viva", Editora Nova Alexandria, São Paulo, SP, 2003, pág. 70)

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