Têxto muito bom sobre a música em geral e o filme da Cássia Eller

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Têxto muito bom sobre a música em geral e o filme da Cássia Eller

Mensagem por Mauricio Luiz Bertola em Seg Fev 09, 2015 11:04 am

Têxto muito interessante de um conhecido meu, músico profissional aqui de Niterói, Zélly (Marcelo) Mansur.

Quando Cassia Eller morreu, meu primeiro sentimento foi RAIVA...
"Como assim ???... Essa mulher era imortal na minha mente. PQP !!! E agora ?"
Fiquei orfāo...fora a mìdia eternamente escrota, destruindo a estrela com seu "marronsismo" infalìvel, rodeando sua morte com drogas e depressões, qdo boa parte eram eles os grandes culpados.
Todo ano, pelo menos uma vez, me pergunto até hoje o que ela estaria fazendo-cantando-compondo se viva, nesse mundinho terreno e fora dos seus intocáveis "despadrōes"... Sobrevivi...mas fui ver seu filme-doc hoje. E uma dor avassaladora me comeu do meio pra lá.
Qdo ela apareceu, ainda sem reconhecimento, foi o período que mais produzi como músico. Tinha vindo do Conexão Japeri, com Ed Motta e dirigia Zélia Duncan quando cruzei uma única vez com Cassia nos camarins da vida, num show emblemático no aniversário de Brasília, num palco montado no gramado do Planalto, pra milhares de pessoas. Me espantei muito com sua 'assinatura'...no palco e na conversa de bastidor...um vulcão, como mencionou muito bem a Zélia no filme.
Passado isso, a vida me deu uma volta...o mercado quebrou com a digitalização, a pirataria e a globalização www... Viver de música virou um tormento e eu,... desacreditei. Ainda toquei com a Sandra de Sá... mas "Abandonei" por completo essa possibilidade e parti pra suas ramificações como técnico de estúdio, fui pra Angola pela primeira vez, no final da guerra civil, e ainda sobrou um pouco de trilha sonora em meio a operação de áudio...aprendi outros universos como editor de video, um pouco de computação gráfica, entrei pro Projac como sonoplasta, montei uma produtora sem muito entender do assunto no início, coordenei a comunicação de uma petrolífera e fui me distanciando das notas, das claves, dos arranjos, da composiçāo por quase 10 anos....desilusāo de um projeto de vida que me iluminava desde os 13 anos com meu primeiro violão.
E vendo hoje, aquela mulher simples e despojada, tímida e furiosa musicalmente, malandra e inocente, que só queria cantar e f***-se o mundo...se pra poucos ou multidões, ela foi inteira, intensa, completa, íntegra, sadia, sagaz... Me deu uma angústia forte dos porques do meu abandono. Do porque da não entrega. Do que fiz com meu destino...chorei bem durante o filme,... precisava... Me emocionei muito vendo amigos músicos ali na película... Waltinho Vilaça, por exemplo, seu guitarrista, gravou pela primeira vez na vida sob minha orientação...e outros que passaram naquela tela, cruzaram pela minha carreira de forma significativa. Muitos como eles, vivem apenas de música até hoje...são guerreiros sobreviventes numa cruzada cruel...batalha de meia dúzia contra um verdadeiro exército de mediocridades musicais e desconforto, na escravidão que um músico tem que passar por viver num Brasil sem leis. Leis de proteção, de valores, de essência, de referência, de qualidade...
Cheguei a ter pena de muitos...até dos que ainda conseguiam sobreviver na selva de hipocrisia que o mercado fonográfico os oferecia e oferece até hoje. Assisti esse 'programete' chamado Esquenta mais cedo por mera avaliação e deu vontade de vomitar...tanta música boa e esse povo, de zona sul inclusive, cultuando pseudo-funks e pseudo-pagodes, regidos pela Regina Chacrinha: "Vcs querem bacalhau?" e a grande mentira é que o povo pensa pequeno...NÃO...pequeno é o que oferecem à ele... enfim...
Se me desviei, tive beneces...se não acreditei no meu sonho, tive motivos...se deixei a vida me levar pra caminhos como subordinado, tive bons mecenas que acreditaram ... Outros nem tanto, mas não somos perfeitos...nem eles.
Fui muito feliz em tudo que aprendi e vivi, mas sai dessa sessão de cinema hoje com um pensamento fiel... "nunca mais tirar meu foco do meu potencial por falsos valores...nunca mais farei nada esperando resultado e sucesso, pois farei por prazer, seja o que for...nunca mais deixarei a vida me levar, pois quem conduz sou eu...e tudo movido apenas e puramente pelo amor ao que faço e pela simplicidade de ver em meu resultado, de tudo que aprendi nesse mundo, meu orgulho".
Essa ficha já tinha caido enquanto fazia meu(s) disco(s) há 2 mêses...(sim ! tenho outro infantil lindo na manga...rs)...Mas hoje, eclodiu...
Obrigado Cássia ! Pelo seu legado, sua pureza de espírito e pelo simples prazer de viver e externar com verdade seu som mais profundo...

Mauricio Luiz Bertola
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