Facebook, família e ufanismo

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Facebook, família e ufanismo

Mensagem por Ivanov_br em Ter Jul 10, 2018 5:40 am

Não me considero um polemista, mas acho que a opinião colocada de forma contundente pode gerar debates preciosos que, se bem fundamentados e contra argumentados, pode me fazer mudar de opinião.

Outro dia, ao postar uma notícia sobra a última m. que o Crivella fez na Prefeitura do Rio, escrevi que o que está acontecendo hoje na cidade maravilhosa é culpa dos cariocas, inclusive dos que não votaram nele, pois eles tinham obrigação de dissuadir os eleitores do então senador da república pelo combamlido Estado do RJ. Em minha página no Facebook já fiz outras críticas semelhantes, como já fiz aqui também.

O objetivo aqui não é discutir a tal polêmica, mas sim dividir com os colegas o ufanismo cego que muitas vezes se confunde com outros adjetivos.

Explico. Ao criticar os cariocas, algo que faço sempre pois autocrítica é importantíssima, busco chamar a responsabilidade a estas pessoas que reclamam da classe política desde que me conheço por gente mas que não se posicionam como cidadãos e constroem outras alternativas a representatividade política. Buscar um grupo existente, ou formar um que leve para a mesa de decisões pautas importantes para este segmento é a base de um estado democrático. E na minha visão, o cidadão carioca se alienou do processo político em sua essência. Digo isso porque não considero votar a cada dois anos um atestado de politização. Isto é construído diariamente, na comunidade, no bairro, no município e por assim vai.

Em face a este estado paralítico político, camadas sociais mais organização sem destacaram e galgaram posições de destaque na polícia carioca. Candidatos vinculados a igrejas, a milícias (atenção: não é uma comparação) viram a estrada aberta para suas estratégias de poder. E conseguiram. Tornaram-se um câncer difícil de estripar.

Dito isto, retorno ao objetivo do meu post: parentes (estranhamente que se enquadrariam no rótulo de “coxinhas”, algo que aliás considero idiota e simplório) atacaram o meu post defendendo quem?!? OS CARIOCAS. Que eu era um babaca por criticar meus “compatriotas”, que eu era metido a besta por ter saído do Rio, que os cariocas não tinham nada a ver, que eles não tinham opção na eleição e mais algumas frases recheadas de ironia e sarcasmo com relação a mim. Tudo isso porque disse que se o Rio tava assim, era culpa dos cariocas. E não é? No Rio não vale a máxima: cada povo tem o parlamento que merece?

O ufanismo é meio que como fé ou ideologia, algo que as pessoas se apegam de um jeito para proteger sua preciosa opinião e conforto. Morando no RS desde 2004, sei que aqui o bicho também pega com relação a um orgulho excessivo de ser daqui ou dali, como se ter nascido lá ou acolá fosse garantia de qualidades ilibadas registradas em cartório. Em tempo, o RS tá na m. não devido aos impostos que são enviados para Brasília, como dizem os separatistas (que sonham em ter as praias de SC e o dinheiro do PR), mas por consequentes escolhas equivocadas de governantes também.

Tal postura só contribui para uma visão minúscula do todo, o que pode ser consciente ou inconsciente. Não permite uma visão crítica e reflexiva do panorama social que nos encontramos. E isto, para mim, é fundamental para que posssamos rediscutir tudo em sociedade e então, botar a mão na massa para mudar o que está aí.

Enfim, neste post trago meu espanto com a raivosa reação de familiares a minha crítica a uma postura apolitizada generalizada que leva a todos a um sofrimento diário sem perspectiva de melhoras. De forma alguma estou criticando a religiosidade de qualquer colega aqui. Como moderador há 10 anos, tenho que dar o exemplo, né?
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por Rico em Ter Jul 10, 2018 7:07 am

O buraco é mais embaixo. Plantou-se ignorância. Colheu-se o medo. Tínhamos opção. Aliás, uma ótima opção representada por Freixo, mas os barões da corrupção e tráfico trataram de fazer propaganda contra ele, espalhando todo tipo de informação falsa.

A mídia por sua vez se calou. Devem ter pensado que seria mais fácil lidar com o pastor, e se algo desse errado, jogariam-no aos leões.

Que ninguém se iluda. O que está acontecendo agora no RJ já acontece há décadas. Só pra dizer de quando me lembro desse tipo de irregularidades, volto à gestão do Chagas Freitas, que distribuía moradia e cargo público aos seus.

Desde a ditadura que toda forma de resistência foi sufocada, oprimida, esmagada... Hoje a gente vive numa sociedade em que se pede fim dos direitos civis e a volta de um comando militar!!!

Picianni tá preso (amém), mas ainda falta muita, mas muita gente! O RJ foi dividido em feudos, e desde sempre as mesmas pessoas cuidam de seus lucrativos esquemas sujos, e isso inclui o dublê de pastor, o governador, vários deputados, senadores, comerciantes, mídia, delegados, policiais e por aí vai...

Aliás, a desinformação que levou à total ignorância transformou o RJ no reduto político de seres abomináveis e corruptos como o Bozonaro, Rosa Fernandes, Domingos Brazão, Garotinho, Cristiane Brasil... Tudo farinha do mesmo saco, tudo parceirinho, todos sujos.
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por Mauricio Luiz Bertola em Ter Jul 10, 2018 7:48 am

Ivanov_br, como o Rico falou a situação é bem mais complexa do que isso.
A décadas que o Estado do Rio é dominado pelo que há de pior e mais atrasado na política brasileira. Já disse isso aqui e já expliquei que as razões são profundas e as opções que foram adotadas pelo governo federal (Brasília, Estado da Guanabara, fusão GB/RJ, etc...), só prejudicaram o Estado do RJ.
Quero colocar uma questão aqui também: Existem dois problemas básicos aqui no RJ: O 1º é a segurança. Esse problema não é novo. Quem estuda (como eu) História, sabe que o Rio SEMPRE foi uma cidade perigosa (na metade do século XIX haviam "toques de recolher" informais à noite, quando as ruas era dominadas por bandos de "capoeiras". Crimes e tumultos eram corriqueiros). A diferenciação social, a falta de educação e de moradia decente só agravaram ao longo do tempo essas mazelas. Os sucessivos governos nada fizeram; aliás, a Ditadura antes os piorou, impedindo a Reforma Urbana (essa principalmente) e a Reforma Agrária, o que agravou ainda mais a diferenciação social e o Êxodo Rural. O 2º é próprio Estado, eivado de corrupção e destinado à beneficiar apenas as Elites empresariais e políticas que nele se aboletam. Esse Estado, para suprir as demandas de "ordem" destinada a beneficiar essas classes, criou uma estrutura policial ineficiente e "inchada", e voltada apenas para a repressão e para a violência, o que foi agravado na Ditadura. A associação de setores policiais com o crime (organizado ou não) aqui é notória e muito antiga, e, quando da redemocratização (que nada resolveu), e do tímido combate à essa corrupção endêmica, começaram a surgir as milícias - Eu fui testemunha desse processo, pois a 1ª grande milícia foi constituída em Jacarepaguá (na favela do Rio das Pedras), onde eu morava no final dos anos 70 e início dos 80.
Outra questão importante e estudada por alguns colegas meus é o surgimento no Rio de Janeiro (e no Brasil) das chamadas seitas neo-pentecostais. Esse processo iniciou-se nos anos 70, sob o beneplácito da Ditadura. Essas seitas vicejaram exatamente onde a sociedade brasileira é mais frágil: Entre as classes mais baixas, menos dotadas de educação e que levavam vidas miseráveis (o protestantismo tradicional não tem nada à ver com isso, posto que mais antigas e que eram "destinadas" às classes médias), facilmente vítimas de sua exploração da fé promovidas por esses "pastores". Logo essa gente passou a aproveitar-se do Estado, através de mecanismos ideológicos e de rearticulação do antigo voto de cabresto (sempre presente na sociedade brasileira), transformando-o em "voto de cabresto evangélico", em uma clara apropriação do Estado (que é, e deve ser sempre laico)para fins de beneficiação desses grupos (na verdade de suas lideranças), não apenas do ponto de vista financeiro, mas também ideológico.
O resultado está aí... Um alcaide da cidade eleito através desses esquemas de corrupção e manipulação da consciência das pessoas, por um conjunto de seitas cujo único objetivo é beneficiar-se à sí próprios e explorar a boa fé das pessoas humildes, dotadas de uma visão de mundo atrasada, reacionária e cínica, que "se cria" em um ambiente propício por conta do medo e da desesperança.
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por allexcosta em Ter Jul 10, 2018 9:06 am

Assunto interessante... Algumas idéias de alguém que não é do Rio.

O carioca tem uma visão muito específica e atípica do mundo. Isso acontece com pessoas que vivem cercadas por montanhas, é um fenômeno natural que ocorre também em Santiago do Chile, por exemplo.

Há ainda outra característica natural de suma importância, o calor excessivo e ofensivo. Isso, por si só, gera violência e incômodo à população.

Como alguém que cresceu em uma cidade de praia que recebeu grande quantidade de ex-escravos, sei também de todas as implicações sócio-econômicas que isso causa.

Aliás, me sinto relativamente confortável em tentar fazer uma breve análise, mesmo que rasa e com limitado conhecimento histórico, dos fenômenos que transformaram a cidade do Rio no que ela é hoje.

Digo isso porque sou de uma cidade que foi capital, que é caótica, que se acha a última gota de água do Saara, que tem natureza exuberante, mas que também tem algumas características diferentes.

Como diz a Fernanda Abreu, o Rio representa o melhor e o pior do Brasil. O melhor, pasmem, é a mulata com pena na cabeça, o estádio lotado, a praia linda, a bunda redonda, o turismo, o estilo de vida de garotão, essas coisas...

O pior é o que vocês já disseram aí em cima.

Só que há um porém e uma diferença básica entre Rio e Salvador. O carioca foi treinado pra pensar que vivia no centro do universo. "Do Leme ao Pontal não há nada igual", a cidade é "maravilhosa", o "Cristo de braços abertos nos protegendo", a rede Globo se lambendo e lambendo a cidade 24 horas por dia desde a sua fundação.

O Rio é o símbolo do "sul maravilha" (desculpem sulistas, pra nordestino sul é Rio e SP). É a cidade onde Renato Aragão chegou e ficou rico. É onde a Xuxa chegou e virou rainha... É onde aquele povo da TV mora... O Rio foi para brasileiros de outros lugares o que os EUA são pra América latina, lugar dos sonhos e oportunidades.

É natural que o carioca seja ufanista, assim como o americano é. Tenho uma pessoa próxima do RJ capital que quando falo que tenho um amigo no Rio (outra cidade) ela rapidamente me corrige, dizendo que ele não é do Rio, mas sim, fluminense. Quando digo que a pessoa é do Rio sim, pois é do estado do Rio ela fica um pouco irritada e me fala "então diga especificamente 'do estado do Rio, mas não do Rio'".

Uma diferença entre nós, soteropolitanos e os cariocas é que crescemos entendendo que somos um pólo talvez local de cultura, mas muito longe do tal "sul maravilha" que o Rio tão bem representa. E Salvador não é tão quente, tão grande e tampouco cercada de montanhas. O baiano é mais curioso em relação ao resto do mundo que o carioca. E quando você vê o mundo, você se enxerga melhor.

Além disso, cidades que possuem um porto internacionalmente importante, criam uma infra-estrutura de crime (drogas, prostituição) em volta do comércio de docas.

Aqui mesmo no fórum já vi cariocas escrevendo coisas como "o Rio é uma cidade violenta como qualquer outra" ou "algumas pessoas dizem isso porque têm inveja de quem mora no Rio". A doutrina ufanista e a lavagem cerebral pelas quais o carioca passa desde criança são muito fortes. E é difícil para um adulto se desvencilhar de suas crenças de infância, vide quantas pessoas são católicas porque a família é, ou torcem por um time porque o pai torcia...

Simpatizo também com a reação de algumas pessoas a nós, que saímos de nossa terra natal. Parece que uma vez que você mora em outro lugar, uma vez que retorna, mesmo que visitando, não pode fazer nenhum comentário negativo. Se torna uma daquelas coisas: "eu posso falar mal porque eu sou daqui, mas você não pode".

Desde criança eu sempre fui muito crítico em relação ao caos generalizado que é o Brasil e, especificamente, minha cidade natal. Ninguém nunca deu muita bola pra isso... Mas depois que morei fora, se faço um comentário aleatório do tipo "nossa, que engarrafamento..." ou "o sistema está fora do ar de novo?" eu sou um escroto que tá tirando onda porque morou em outro lugar. Sendo que nunca me furtei de comentar as coisas ruins dos EUA ou de qualquer outro lugar que conheço.

Em resumo, é uma discussão inútil... O carioca muda de opinião naturalmente (quando muda). E geralmente acontece depois de viajar um pouco.
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por fheliojr em Ter Jul 10, 2018 10:22 pm

Só sei q o mundo está ruindo... :/
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por Ivanov_br em Ter Jul 10, 2018 10:56 pm

Bertola, excelente contribuição. E Rico, também concordo. Aliás, num post de Facebook eu não teria petulância de dissertar uma tese sobre o por quê do Rio ser assim hoje. Mas independente dos fatores que levaram ao caos de hoje, só podemos mudar se a sociedade se (re)organizar politicamente para encontrar soluções exequíveis dentro de um estado democrático de direito.

Mas creio que foi o Allex que respondeu a questão por mim colocada: o ufanismo cego. Meus parentes me silenciaram por não morar mais lá, por não votar lá e etc. me descredenciaram de fazer qualquer poderação ou crítica a cidade e seu povo. E acredito que tenho este direito. Quando entendo que uma sociedade jogou a toalha com relação à política, ela lavou as mãos para que os podres poderes fosse tomados da forma que o Bertola colocou.
O ufanismo é, para mim, um sentimento atrasado, que bloqueia a luz que te permite se repensar como indivíduo e grupo social. E ajustes são necessários de tempos em tempos pois nesse mundo líquido, tudo pode ser modificado ou reinterrpretado.
Obrigado por criarem aqui um ambiente de alto nível de discussão.
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por rafacar em Qua Jul 11, 2018 9:35 am

Só não esqueçam que não é a toa que o Rio é o reduto máximo da esquerda nacional.

Para quem conhece um pouco de História, é inexplicável como candidatos que representam partidos de cunho marxista, que é o o que existe de mais retrógrado na política e na economia mundial, possam obter tantos votos no Rio em pleno Século XXI, menos de 30 anos após o mundo assistir, estupefato, à queda do Muro de Berlim e à dissolução dos modelos comunistas por trás da Cortina de Ferro.
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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por edumerino em Qua Jul 11, 2018 10:19 am

^esse moço tem um probleminha...

E Ivanov, não é muito diferente do que acontece aqui em SP.
Aqui o mais comum é encontrar pessoas que procuram razões pra enaltecer a cidade só "porque sim". Tem gente que consegue dizer que aquele amontoado de prédios feios e desordenados que é a maior parte da paisagem das regiões centrais bonito. Na minha opinião nada impede você de ser grato por morar aqui, até gostar das facilidades que a cidade oferece e achar aquilo horrível, porque é horrível!
Mas isso não é o pior. O pior mesmo são os que acham que aqui é o centro econômico-intelectual-cultural da p**** toda. Assunto que em partes o Allex já abordou bastante por aqui.
Aqui tivemos o episódio do Prefeito-Gestor que ganhou a eleição dizendo não ser político fazendo a campanha mais "político clássico" dos últimos tempos. Com direito a beijo em criancinha e comer pastel de feira e pingado na periferia. O problema que o Rio passa é o mesmo daqui e reflete do BR como um todo.

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Re: Facebook, família e ufanismo

Mensagem por SRTO em Qua Jul 11, 2018 10:50 am

Ivanov_br, é complicado tecer um motivo que descreva o que levou aos seus familiares a fazerem tal repúdia. Me parece que há um sentimento de ofensa. Talvez por alguma palavra mal interpretada. Enfim...
Falando sobre o estado, posso afirmar com propriedade que na nossa cultura "jeitinho", malandragem e violência têm raízes profundas e, que de fato, isso muito contribui para essa estagnação ante aos fatos - para grande maioria, tudo que acontece é algo comum.
E acrescentando algo que com certeza é polêmico e que não seria minha intenção em momento algum de ofender, mas tentar agregar: a maioria das redes sociais no Brasil não são "pensantes"; a massa em si é ensinada a não exercer essa capacidade. Quando queremos contribuir para o pensamento coletivo nesse meio, infelizmente, temos que lembrar que a cognição é estancada.
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Re: Facebook, família e ufanismo

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