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Mensagem por Zubrycky em Sex Fev 15, 2019 12:24 am

Essa notícia não saiu na mídia, até onde eu saiba, mas aproveito o espaço para deixar a minha (Tardia) homenagem a um amigo meu, Marcolândio Gurgel Prachedes, o Xinês, vocalista dos Excomungados.

Infelizmente não fomos amigos próximos, mas nossos caminhos se cruzaram várias vezes ao longo destes últimos vinte e cinco anos, primeiro na USP e depois na loja que ele tinha na Galeria Nova Barão, o Garimpo Cultural. As conversas que tivemos e os livros e discos que comprei dele são parte do que sou hoje.

Não consegui, por uma série de motivos, abrir este tópico desde domingo. De qualquer forma, dedicamos o mais recente show do Aparelho à memória dele.

Descanse em paz, amigo. Foi uma pena que, por causa dessas correrias da vida, nossos planos de tocarmos juntos nunca se concretizou.

Tomo a liberdade de deixar um texto escrito por Marcos Rossini, baterista fundador dos Excomungados.

Breve epitáfio para um bispo punk

"Foi uma verdadeira honra para mim quando o Gabriel Sossai, esse ícone do punk sp atual e camarada de todo mundo, me pediu para escrever algo sobre o início dos Excomungados e o Chinês Praxedes. Eu escutei as várias versões sobre a morte do Chinês (Xinez) no domingo; uma falava que ele tinha caído depois uma sua heróica resistência à polícia, outra contava sobre uma covarde execução depois de um surto, mais tarde se soube que ele tinha partido por problemas de saúde. Eu fiquei arrasado quando eu soube do falecimento do garimpeiro cultural que escavava sempre na tristeza para achar um brilhante sorriso para a gente. Ele nunca deixou de lutar, foi resiliente e poliédrico, um pouco como todo paulistano: mercenário, bispo, revolucionário, professor, corsário, pai-de-família entre outras coisas. Criatividade nunca faltou naquele guitarrista que nunca aprendeu a tocar guitarra. Apesar de viver ao lado do instrumento por 30 anos, ele afirmava que aprender a tocar guitarra de modo tradicional acabaria com a cara punk que ele queria imprimir à música dele. Era a famosa guitarra paleolítica dos Excomungados. O paleo-punk da pior banda do planeta como ele costumava a chamar aquele bando de moleques que se tinham conhecido depois da invasão do conjunto residencial da USP, evento no qual ele tinha sido uma das lideranças. O Falcão me levou pela primeira vez até ele, me dizendo: “Eu conheço um cara que mora no CRUSP”. Fiquei curioso.

Nos anos 70 a escola pública não era ruim como hoje em dia, o processo de privatização do ensino organizado pela ditadura militar tinha começado fazia pouco tempo, e portanto um filho de zelador como eu, um filho de jardineiro do Jaçanã como o Falcão, e um filho de um místico nordestino que tinha fundado a sua própria religião, como o Chinês, ainda podiam passar o vestibular da USP graças à base educacional que tínhamos tido no passado. Estudávamos história com nobres princípios; para nós era fundamental entender pelo que estávamos passando, a origem de tudo aquilo, e ter a possibilidade de alertar e educar as próximas gerações. Tínhamos saído do ninho fazia pouco tempo e nenhum de nós esperava que sobreviver sozinho seria tão difícil, a desilusão foi gradualmente crescendo, e tomar cacetada da polícia nas manifestações era só uma pequena parte daquilo. Nós estávamos com o saco-cheio de tudo, desde a música que tocava no rádio até os cabelos longos dos pós-hippies nacional-populares, de como o movimento estudantil era controlado pelas correntes até a violência dos militares...um pouco como o que estamos vivendo hoje.

Um dia, em qualquer ponto de busão das nossas vidas, eu e o Falcão decidimos que era hora de romper com tudo. Em 1976, eu ouvi pela primeira vez o Sex Pistols na casa do Maurício Garrote, e não acreditei...fiz eu mesmo uma camiseta punk e saía pelas ruas com ela, mas na época eu encontrava punks só em gigs de banda de rock pesado; eram poucos, e ficávamos do lado das caixas de som com aquelas caras pálidas e apocalípticas. Nos anos seguintes enquanto eu me preocupava em trabalhar, militar no sindicato e estudar, o movimento punk crescia e aquele sentimento de revolta finalmente se popularizou com o festival “O começo do fim do mundo” no SESC em 1982.

Aquilo contribuiu para incentivar a decisão que tínhamos já tomado. De um dia para o outro parecia que uma página da história tinha sido virada, não éramos mais os mesmos, estávamos em um processo de reelaboração (reset) de uma série de conceitos e concepções para conseguir exprimir o que a gente sentia de maneira coerente e forte. O Chinês tinha feito um trambique qualquer (como sempre) e tinha conseguido uma guitarra, eu tocava com um tarol Gope (comprado no Mappin) como caixa de bateria e com uns almofadões de couro como tambores, o Falcão gritava sem microfone e o Poeta tinha arrumado um daqueles guitarrões velhos dos anos 50 de cor vermelha. Só uns meses depois que o Mineiro iria conseguir arrumar um baixo para compor o núcleo inicial do que seria batizado por mim de Excomungados. O nosso círculo de amigos aumentava e quando o Poeta (autor de “Com o saco-cheio de rock’n’roll”) partiu para Serra Pelada, o Marquinhos Lagonegro entrou na banda.

Cada um tinha uma característica, eu era o ideológo punk que fazia fanzine e material midiático, cuidava da parte organizativa e logística, o Falcão encarnava o punk na sua essência mais poética e expressiva a nível físico e comportamental. O Marquinhos era intelectual e sabia tocar música. O Mineiro era um criativo artista que só pensava em se divertir. Uma das principais características do Chinês era a sua sociabilidade, ele era uma espécie de relações públicas do grupo; ele sabia fazer com que as pessoas se sentissem bem perto dele, usando uma séria infinita de artimanhas e artefícios, discursivos e práticos. Das inúmeras pessoas que giravam em torno aos Excomungados, o Chinês descobriu vários artistas como o gaúcho Otacílio Camilo (https://lume.ufrgs.br/handle/10183/173607), o esteta rebelde segundo Izis Abreu, que passou a cuidar do nosso material de mídia. O Eliseu foi outra descoberta dele, era um artista de Resende-RJ, que chegou a morar no CRUSP até que alguém o fizesse desaparecer das nossas vidas. Sem falar de outras personalidades como o Parafuso e o Gilmar, além do Fábio e o Paulo das bandas filhotes dos Excomungados, a Uza-Autópsia e a F-64. Peço desculpas aqui para os muitos que não foram lembrados por mim, mas é que o Chinês tinha essa coisa, o movimento para ele era uma família, ele sentia a necessidade de se relacionar, e isso era parte de um processo interativo que o completava e que fazia com que ele pudesse passar toda a sua experiência para os mais jovens em meio à esse contexto tão medíocre, violento e nefasto como o da nossa amada cidade de São Paulo.

A partir da improvisão inicial e mais equipados, a férrea vontade de seguir em frente nos levou a fazer dezenas de gigs por todo o estado, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Chegamos a se apresentar até na Bienal de SP - A Trama do Gosto de 1987, lá encontramos o poeta construtivista Augusto de Campos. Foi o Chinês que me levou um dia para Curitiba (deveria ser 1987) onde acabamos fazendo amizade com o poeta Paulo Leminsky e com ele, por duas noites, nos encharcamos nos botecos daquela fria cidade. O Leminsky queria entender o que era o punk, e ninguém melhor que o nosso bispo Chinês para explicar para ele.

Todo punk sabe que nossas vidas têm alto e baixos, e quando os momentos são baixos, são muito radicais mesmo, mais além que o fundo do poço, que nem prospecção de pré-sal. Uma das mais intensas experiências que eu vivi com o Chinês, além das brigas, batidas e fugas da polícia, do tiroteio em Santos no festival do Tropa Suicida, foi quando eu e ele acabamos por 3 dias no extinto DEIC numa cela com 15 fulanos. Tinha de tudo, ladrão de banco, de galinha, estelionatário, estuprador, etc. Durante a segunda noite puseram um fulano na cela que já tinha apanhado bastante da polícia, ele nos disse que precisava de alguém para quebrar o seu braço porque se ele não fosse para o hospital naquele momento, iriam colocá-lo no pau-de-arara na manhã seguinte e ele teria que caguetar o chefe dele. Caraia....isso eram 2 da noite! Imaginem! Daí um ciclano se levantou e disse: “Põe o braço aqui entre o pé da latrina e o chão que eu quebro com o pé”. Depois de várias tentativas o braço inchou, o cara já não aguentava de dor, logo o guardião foi chamado, e o levaram. Já nesse dia mesmo de manhã um investigador fdp me levou junto com o Chinês para a pré-sala do pau-de-arara, assim a gente podia ouvir os caras apanhando e gritando, ficava com medo e dizia às nossas famílias para pagar o que eles queriam para soltar a gente.

Sabíamos que tudo aquilo era para fazer pressão pois não tínhamos feito nada de extraordinário. O interessante é que nessa pré-sala a gente encontrou dois caras. Um tal de Zoreia que era um alemãzinho feio, com sardas e orelhas de abano, e o seu comparsa que só abria a boca de vez em quando. Deviam ter no máximo 18 anos. Como ele mesmo relatou com orgulho, o negócio deles era assalto, e que se ele não gostava da cara da pessoa atirava no peito ou na boca. Disse que tinha 12 na conta, fora os que tinham “por vontade de deus” sobrevivido. Vinte minutos depois tiraram um cara que caminhava quase de gatinhos da sala do pau, e levaram o Zoreia e o comparsa para lá. Em seguida nos levaram de volta para a cela sem nos tocar. A polícia civil tinha achado bagulho no nosso bolso depois de uma manifestação para a volta da democracia, viu que a gente estudava na USP e pensou que nós tínhamos dinheiro. Um dos investigadores do DEIC armou tudo para que algum parente nosso pagasse uma grana para nos soltar, ele acusou a gente de ter roubado um rádio de um Opala. O policial nos livrou só quando as nossas famílias cumpriram o acordo. Meses depois, lendo a Folha, descobri que eu e o Chinês tínhamos estado na presença de uns dos maiores homicídas do estado, o Zoreia, que tinha sido morto pela polícia no dia anterior.

A idéia de fazer intervenções punks para perturbar os eventos dos políticos foi idéia dele também. O reitor Goldemberg perdeu os últimos cabelos brancos que tinha na cabeça graças à aqueles anarquistas malditos que tinham invadido o CRUSP, intervinham em todas as manifestações oficiais, apoiavam as greves dos funcionários, o chamavam de nazista, e ainda desenhavam um símbolo profano nos muros.

A primeira música dos Excomungados, que pegou mesmo, foi o Chinês que escreveu, se chamava “p****” e dizia:“...p****! Quem é que bate a essa hora da noite?Será a senhora morte?...”

Eram tempos onde as milícias do esquadrão da morte chegavam repentinamente de noite para acertar as contas, e logo na manhã seguinte podia ser que o Gil Gomes narrasse tudo como uma novela pelo rádio perguntando: “Quem é que bate a essa hora da noiteeee?”, ou se podia supor que aquilo fosse somente uma alucinação do Beethoven...tudo era como hoje em dia: alienação e violência, por isso que nunca perde o sentido ser punk.

Isso é só um pequeno resumo sobre o começo dos Excomungados, quem sabe um dia escreverei tudo com mais detalhes. Em 1989 eu deixei de acompanhar o Chinês porque resolvi seguir uma estrada diferente por via das minhas necessidades econômicas. Sempre quando eu voltava à SP, eu passava lá na loja, e como sempre ele estava rodeado de artistas talentosos como o Gabriel Sossai, o Fábio Rodarte e outros que toda vez me recebiam e recebem com muita gentileza, música e poesia punk.

Descanse em paz, Chinês! E obrigado por tudo que você fez pela gente!"


Última edição por Zubrycky em Sex Fev 15, 2019 7:49 am, editado 1 vez(es)
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Mensagem por Mauricio Luiz Bertola em Sex Fev 15, 2019 7:04 am

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Mensagem por Cantão em Sex Fev 15, 2019 9:13 am

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Mensagem por Paulo Penna em Sex Fev 15, 2019 9:17 am

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Mensagem por afonsodecampos em Sex Fev 15, 2019 10:41 am

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Mensagem por Coder em Sex Fev 15, 2019 10:59 am

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Mensagem por pedrohenrique.astronauta em Sex Fev 15, 2019 2:47 pm

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Mensagem por Uchoa em Sex Fev 15, 2019 3:58 pm

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Mensagem por joabi em Sex Fev 15, 2019 8:23 pm

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Força a você, Zubrycky, pela perda do amigo.

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Mensagem por Zubrycky em Sex Fev 15, 2019 8:41 pm

joabi escreveu:R.I.P.

Força a você, Zubrycky, pela perda do amigo.


Muito obrigado, meu querido.
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Mensagem por fheliojr em Dom Fev 17, 2019 5:34 pm

Meus pêsames, Zubrycky. O falecimento de alguém de quem se gosta é como perder parte de si.
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Mensagem por Zubrycky em Seg Fev 18, 2019 8:16 pm

fheliojr escreveu:Meus pêsames, Zubrycky. O falecimento de alguém de quem se gosta é como perder parte de si.

Obrigado, meu querido.
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Mensagem por Maurício_Expressão em Ter Fev 19, 2019 10:01 am

Descanse em paz!
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