A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

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A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por INGVARR em Sex Jun 03, 2016 6:13 pm

Tópico aberto para que outras pessoas tenham a oportunidade de aprender com a minha estupidez. Esta é a principal intenção. Vejam só:

Situação:

Baixo Yamaha BB714, quadro cordas, adquirido em fevereiro deste ano. Desde que peguei este maravilhoso instrumento (fantástico em todos os aspectos) eu implicava com a altura das cordas. Achava altas demais, especialmente após a 12ª casa (o que é normal, eu sei). Não mexi em um parafuso sequer, porque, de acordo com o manual, aquelas eram as configurações ideais, vindas de fábrica. Então, nesta semana troquei as cordas pela primeira vez: optei por um kit da Rotosound, do Billy Sheehan (43, 65, 80, 110) e fiquei numas de “preciso baixar essas cordas!”. Era como um martelo na minha cabeça.

Mas eu decidi me "informar" melhor, porque, mesmo tocando há 15 anos, eu nunca fui muito esperto no que diz respeito a regulagens. E, sim: eu já destruí um contrabaixo meu, um Strinberg medonho, tentando regulá-lo. Aí, começam as pesquisas do Google, e é aqui que eu digo a todos: CUIDADO! Você encontra toneladas de informação sobre tensor, ponte, altura das cordas, etc. O grande problema são as pessoas que prestam essas informações, bem como a autenticidade do que é dito. As fontes confiáveis são mínimas (cito este fórum como uma das poucas fontes confiáveis a esse respeito) e as contradições são abundantes. Eu posso ressaltar três sujeitos diferentes que encontrei no Youtube. Os três caras (um deles luthier; os outros “músicos”) principais que vão aparecer por lá tratam-se de analfabetos. Sim, analfabetos, porque se não conseguem sequer falar direito, eu duvido que consigam escrever corretamente. O que esses caras dizem e fazem sobre tensor, por exemplo:

O primeiro: “Nunca gire o tensor mais que ¼ de volta por dia! Se as cordas trastejarem, solte o tensor! Mas lembre-se: apenas ¼ de volta por dia! E solte todas as cordas!” – Aí eu fico imaginando um luthier: “Ok, eu regulo seu baixo, mas entregarei em dois meses, porque só posso girar o tensor ¼ de volta por dia!”.

O segundo: Mostrava como fazer as regulagens em sua bancada de trabalho. Aquele cara girava o tensor de um contrabaixo como se fosse um brinquedo de dar corda. Recomendação principal: “Deixe o braço reto! Solte apenas as cordas que bloqueiam a entrada do tensor na hora de regular!”.

O terceiro: Esse já começou com mea culpa antecipada, frisando que tudo era "só a opinião dele", demonstrando uma completa falta de convicção sobre o assunto. Não falava nada sobre quanto você deve girar por dia, não falava sobre cordas soltas ou afinadas, e a cada frase que soltava, desencorajava até o cara mais experiente do mundo a mexer no tensor, como se aquilo fosse uma ferramenta satânica com um dispositivo para acabar com sua vida caso você queira mexer nela.

Aí, tem aquelas desgraças de Yahoo Respostas e fóruns do Cifra Clube, onde só tem um monte de moleque contando que ganhou a primeira guitarra do pai ontem e hoje já quer ter as regulagens do Jimi Page. Só bobagem e mambo-jambo. Não se encontra uma coisa que se aproveite.

Esta carga atômica de informações desencontradas entrou no meu cérebro e começou a corroê-lo, por assim dizer. Ok, agora eu estou completamente sóbrio (não bebo, mas parece que eu tomei um porre de pinga) e posso dizer: altura das cordas se configura mexendo na ponte; cordas muito baixas vão inevitavelmente trastejar; o tensor serve para compensar a tensão que as cordas exercem sobre o braço e não é a ferramenta exclusiva para configurar a ação das cordas; o tensor é como um parafuso gigante: ele tem um começo e um fim! Assim, não espere conseguir afrouxar todo o tensor e conseguir com que o braço do instrumento se pareça com um tobogã convexo. PLUS: O braço pode, sim, ter uma pequena convexidade, mas não é afrouxando o tensor até a bala sair que você vai conseguir se livrar de trastejamento.

Então, o espírito do retardo mental encarnou em mim, graças ao desserviço da Internet! Comecei a soltar o tensor igual a um maldito maluco. E soltei, soltei, até quase a bala sair. E nada de eu conseguir uma ação decente. Aí, com o tensor totalmente solto e a bala quase saindo, surtei: “Oh, céus! O tensor não responde aos meus comandos!”. Mas é claro que não responde, sua anta, pois você soltou tudo!

O que eu precisei fazer: Largar tudo o que eu estava fazendo, bater a parede contra a minha cabeça, fumar uns 10 cigarros e tomar umas quatro xícaras de café, esquecer um pouco da coisa e raciocinar sobre o assunto novamente depois de ver um filme. Foi quando eu voltei à razão, reapertei o tensor e regulei a ação pela ponte. Ficou alta? Ah, sim. Mais do que eu gostaria. O meu braço está reto e com o tempo a pequena convexidade natural deve se formar no meio. Até lá, deixemos a madeira em paz. E como eu não quero o menor trastejamento  MESMO, tenho uma mão consideravelmente pesada e em certas músicas costumo usar palheta, então as cordas devem ficar altas, mesmo. Não há como baixar as cordas, sentar a mão no instrumento e não querer nenhum chiado extra.

Conclusões:
1) Não mexa no seu instrumento se você estiver inseguro quanto ao que vai fazer, especialmente se você for um maluco paranoico e perfeccionista como eu.
2) Muito cuidado com a Internet! O número de imbecis querendo te ensinar a regular um instrumento é colossal. O que dizem sobre o tensor sugestiona a tua cabeça de modo que você vai mexer na coisa achando que está decifrando um enigma que abre ou fecha as portas do inferno. Não é esse bicho de sete cabeças. Não é um brinquedo de rosquear e desrosquear à vontade, mas não é esse vilão que muitos dizem.
3) Leia o manual do seu instrumento e veja o que ele diz. Acredito que esse seja o melhor norte, caso você não queira levar sua criança num luthier. No meu caso, a Yahama orienta e regular o tensor dando meia volta no tensor, aguarda de cinco a dez minutos e checa se está como você quer. Se não, regula novamente e espera os cinco minutos de novo. Só isso. Nada mais.


Abraços


Última edição por INGVARR em Sex Jun 03, 2016 8:18 pm, editado 1 vez(es)
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por allexcosta em Sex Jun 03, 2016 6:23 pm

INGVARR escreveu:especialmente se você for um maluco paranoico e perfeccionista como eu.

Eu ia mencionar isso e te recomendar procurar um especialista.

Tudo que você escreveu já foi comentado aqui em um lugar ou outro, muitas vezes dentro do tópico de regulagem. Sim, não é difícil, mas também não é pra ser feito de qualquer jeito. Se inseguro, pague alguém.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por INGVARR em Sex Jun 03, 2016 6:25 pm

Alguma correção que você queira acrescentar, Allex?
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por Laysson em Sex Jun 03, 2016 11:06 pm

Interessante o texto. Sobre o terceiro vídeo, geralmente quando se adquire muita informação, a tendência é ficar imparcial e ver que não existe um "certo e errado", mas sim o melhor de cada um, pois cada músico possui uma necessidade diferente.
No seu texto, vc não citou ângulo de braço. Esse tipo de regulagem é essencial.
Eu mesmo tenho a opinião de que regulagem é algo pessoal, pois cada músico tem uma necessidade diferente. Não só por estilo, mas por estrutura corporal. Até por isso penso que seja necessário um luthier que saiba ouvir e dê boas dicas pensando na ergonomia e forma de tocar de cada um.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por JAZZigo em Sab Jun 04, 2016 12:20 am

Laysson escreveu:Até por isso penso que seja necessário um luthier que pense nas possibilidades diferentes pra cada tipo de músico e não um que diga qual é a regulagem absoluta e correta pra um baixo.
Eu heim! Pra mim, isso seria igual a ter de levar o carro ao mecânico toda vez que eu tivesse de calibrar os pneus, posicionar os retrovisores, chegar o banco para frente ou para trás, ajustar o cinto de segurança etc. Acho muito mais prático, barato e racional o usuário mesmo fazer o setup básico do seu contrabaixo, até mesmo para conhecer um pouco mais sobre o funcionamento do instrumento e parar de alimentar mitos como o do "tensor satânico"...  Medo  Ajuste da altura das cordas, do sweet spot (altura) dos captadores, afinação das oitavas, ajuste do tensor etc. são fundamentos tão básicos e rotineiros que estão lá, no manual do usuário, ou seja, foram pensados para o dono do instrumento fazê-lo. E quando a intervenção requer alguma expertise, o próprio manual geralmente alerta para que se leve o baixo a um especialista (luthier ou assistência técnica). Bom lembrar que pode haver situações que demandarão uma solução urgente e, nessas horas, uma mocinha chamada Lady Murphy indagará: "Cadê o luthier?" Shocked

IMHO, quem não sabe fazer um setup básico deveria aprendê-lo.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por allexcosta em Sab Jun 04, 2016 5:03 am

INGVARR escreveu:Alguma correção que você queira acrescentar, Allex?

Talvez...

Lendo de novo e olhando seu avatar me pergunto se você não sofre de um caso leve de paranóia.

Quanto às regulagens. Não é que altura seja responsabilidade só dos saddles. Você primeiro regula o tensor quase reto e depois regula a ponte. É um procedimento bem simples que eu realizo em todos os meus instrumentos desde 1988, além de centenas de colegas terem aprendido a fazer nos seus através do tópico fixo de regulagem aqui do fórum, que foi criado 7 anos atrás.

Agora, se o cara não sabe utilizar uma chave ou não entende o que é um tensor e acha que é ok dar milhões de voltas pra um lado e pro outro é melhor levar ao profissional mesmo.

Ah, e esse lance do 1/4 de volta por dia é mais uma medida preventiva para impedir que iniciantes façam alguma bobagem. No dia a dia, meias voltas ou voltas inteiras são comuns, mas não se pode forçar muito o tensor e geralmente se dá uma leve ajuda ao braço para que o tensor não fique muito duro.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por Coder em Sab Jun 04, 2016 8:53 am

IMO, é OBRIGAÇÃO de todo baixista saber fazer pelo menos as regulagens básicas no seu instrumento. É como disse o JAZZigo, você leva seu carro ao mecânico toda vez que precisa calibrar os pneus ou encher o reservatório de água do limpador?

Isso vale pra quem viaja e chega com o instrumento desregulado por causa de variações climáticas. Nem toda cidade conta com um Luthier de prontidão (ou muito menos luthier, dependendo do lugar...).

É claro que antes de sair apertando qualquer parafuso a pessoa tem que pelo menos saber o que está fazendo. Aqui no Fórum tem diversas explicações sobre regulagens, inclusive um tópico totalmente dedicado a perguntas de Luthieria, respondido por pessoas super competentes.

Quando a sua "neura" com cordas baixas, lembre-se que isso depende muito do instrumento e principalmente quem irá toca-lo. Com algumas exceções, um braço deve ser levemente curvado e não totalmente reto, inclusive a própria Fender recomenda a deixar essa "folga", de aprox. 0.35mm entre a parte inferior da corda e o topo do 7º traste.

Nos meus baixos a ação é média-alta, minha pegada não é das mais leves e se deixar a cordas muito baixas as chances de trastejamentos e barulhos é bem grande.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por Vinicius F em Sab Jun 04, 2016 8:59 am

Eu ri com o tensor satânico! hahaha

Mas é isso mesmo, tem muita informação "errada" a respeito disso. Mas sei que exageram na cautela pra ninguém sair por aí fazendo bobagens e responsabilizar fulano, então não acho "errado". Também penso que regulagem básica o usuário deve aprender e todo o resto deixa por conta do luthier, se não sabe ou não tem segurança no que está fazendo. Tenho uma observação a respeito do porquê alguns terem esse medo todo do infame tensor satânico, não necessariamente o seu caso...

Sou da geração que ainda cresceu numa casa com garagem e desde pequeno já fuçava em tudo o que podia por lá. Não tinha computador e nem celular. Isso serviu pra que adquirisse uma certa sensibilidade em mexer com as coisas de forma prática. Não tinha google pra deixar tudo "acessível", então ou me informava com quem realmente sabia na prática ou experimentava, sem medo de ser feliz.

Meu irmão é 9 anos mais novo do que eu. Crescido em apartamento rs. Visitando ele esses dias, pediu pra que eu trocasse as cordas e regulasse a guitarra dele. Ele simplesmente tem medo de pôr a mão na massa. Conhece nenhuma ferramenta. Tava precisando trocar o jack, então mostrei pra ele como se usa o ferro de solda. Mas e o medo? rs Fiz todo o "serviço" e mostrei pra ele que não é bixo de sete cabeças. Conversamos a respeito e chegamos a conclusão que isso de deve às diferenças de como fomos criados e os ambientes diferentes em que crescemos.

OBS: Você parece meio ansioso, apenas! Nada de paranóico ou coisa do tipo. Sei disso por que sou assim também!
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por Klhada em Seg Jun 06, 2016 7:52 am

eu tocava guitarra, mas sempre tinha aquele receio de mexer no tensor (até pq eu tocava com corda 0.09, então regulado uma vez, era bem difícil de mudar, já que só tocava em casa).

comprei o baixo, li o tópico de regulagens, e acho que foi lá mesmo que indicaram um manual da Fender, e um outro de regulagem. Baixei, comprei uma régua de aço gigante, e mãos á obra.

sem pressa, sem stress. Deixei num setup confortável pra mim. Trasteja tocando desplugado, mas zero barulho no fone. Recomendo saber o básico de regulagem e como fazer a parte elétrica do instrumento. Lembro que quando fui começar a mexer nisso (muitos anos atrás), o pessoal botava um terror, que se desse errado e tals... Aí eu pensava: p****, se der errado vai acontecer o quê? Simplesmente não vai sair som. Os caras falavam como se o instrumento fosse pegar fogo Razz) No final eu já saía instalando chave pra defasar captadores, ligar em série/paralelo e outras besteiras (me preocupava mais em mexer do que em tocar)...
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

Mensagem por ZédeLepelin em Seg Jun 06, 2016 2:41 pm

Comigo também aconteceu algo parecido: depois de um luthier meia-boca devolver um de meus baixos sem sequer regular as oitavas, resolvi pôr a mão na massa. Com base nas informações constantes aqui no fórum e através das respostas de trocentas perguntas que fiz ao Bertola, hoje consigo fazer a regulagem dos meus baixos.
Dias atrás deixei com um luthier de confiança para checar a parte elétrica e fiação interna, soldagem etc, bem como a limpeza, hidratação de escala, que são coisas que demandam mais paciência e tempo.

Agora tá tudo nos trinks.
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Re: A saga do tensor satânico e o desserviço da Internet

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